Desafios do Brasil na era dos grisalhos - Parte 1

Sabe aquele título do Tesouro IPCA 2050 em que você investiu para dar aquela turbinada na aposentadoria?

Pois é, talvez valha a pena resistir à tentação do resgate antecipado. Você poderá precisar mais desse dinheiro do que hoje imagina!

Quando alcançarmos o ano 2050, o Brasil estará sensivelmente diferente, pelo menos no que se refere à estrutura populacional. Estamos vivendo nosso processo de transição demográfica rumo ao amadurecimento da população, resultado da gradativa queda nas taxas de fecundidade, acompanhada de um contínuo aumento na expectativa de vida. Em resumo, os brasileiros estão tendo menos filhos, e os adultos de hoje ainda vão aproveitar muitos carnavais.

Em 2050, os carnavais prometem ser agitados e com muitos velhinhos com a corda toda!


Como consequência, a estrutura de nossa pirâmide demográfica sofrerá uma transformação significativa nas próximas décadas. Segundo dados do IBGE, deixaremos de ser um país predominantemente jovem...




... Para, em 2050, nos tornarmos um país com muitos grisalhos:


Salvo alguma catástrofe, daqui a 33 anos, os idosos (60 anos ou mais) somarão cerca de 30% da população brasileira. Eu já estarei "com os dois pés" dentro dessa faixa, assim como, imagino, muitos leitores do blog. O movimento de envelhecimento da população se acentua e ganha contornos ainda mais evidentes em 2060 (fim da projeção do IBGE):



Bom, e que diferença isso fará em nossas vidas?

Antes de mais nada, recordo que existem inúmeros desdobramentos para esse assunto, e não tenho a capacidade analítica nem a pretensão de fazer uma observação exaustiva. Tampouco pretendo produzir posts longos e cansativos, motivo pelo qual o dividirei em duas partes.

Em segundo lugar, esclareço que não desejo centralizar a discussão na importância da reforma da previdência, para não alimentar a histeria interpretativa que toma conta quando o assunto é política. Por enquanto, me limito a opinar que ela é necessária para se lidar com nosso problema imediato. A reforma contribuiria, também,  para a resolução de uma questão de fundo, de natureza comportamental, e que me parece um elemento fundamental para a sustentabilidade de nossa economia no futuro.

Vamos ao problema imediato:


O primeiro bônus demográfico - oportunidade quase perdida

Em bom gauchês, dizer que "o cavalo passou encilhado" significa uma oportunidade que se deixou de aproveitar. E esse parece ser o caso do Brasil em relação à sua transição demográfica, que está em andamento, pelo menos, desde o início deste século.

Via de regra, a transição demográfica ocorrerá apenas uma vez na trajetória de cada país, e é característica de países desenvolvidos, pois reflete o amadurecimento da economia (mais participação da mulher no mercado de trabalho, maior qualidade de vida, maior custo para a criação dos filhos, etc). Esse movimento tem o poder de desencadear três bônus demográficos que, caso explorados corretamente, se tornam vetores para o desenvolvimento econômico.

O primeiro bônus demográfico surge quando se alcança a maior proporção de população economicamente ativa (pessoas ocupadas ou dispostas a trabalhar) em relação à população total. Em teoria, é a janela que reúne as condições demográficas ideais para crescimento da produção econômica, já que concentra o maior saldo possível de força de trabalho em relação a depentes e inativos. O país conta com o máximo de "contribuintes" para geração de renda e arrecadação, e o mínimo de "credores" que oneram a previdência e a oferta pública de saúde e educação. Trata-se de um momento propício para o aprimoramento da capacidade fiscal do Estado, terreno fértil que pode render ótimos frutos caso seja amparado por políticas públicas voltadas ao crescimento de produtividade, à criação e distribuição de riqueza.

Tudo isso na teoria. Dadas as particularidades da terra brasilis, acabamos alcançando o primeiro bônus demográfico de forma precoce, ainda marcados por profundos desafios ao desenvolvimento. E conforme todos podem constatar sem grande esforço, nossos agentes públicos não foram competentes para utilizá-lo em nosso favor.

Pelo menos desde a reabertura política, carecemos de uma visão de Estado capaz de ultrapassar ideologias político-partidárias e priorizar o crescimento do país - por exemplo, por meio de um projeto sério de infraestrutura e melhora da capacitação da mão-de-obra. Imagine contar com uma força de trabalho altamente produtiva, exatamente quando essa alcançou seu ápice numérico? Talvez seja demais esperar visão de longo prazo de nossos estadistas.

No tempo mais presente, os aparentes avanços do governo Lula mostraram-se frágeis e dependentes de uma política fiscal irresponsável, incapazes de se sustentarem de modo autônomo diante do baque econômico que seguiu.


 O Brasil da Nova República carece de uma visão de Estado. Cabe torcer para que
nossos ilustres congressistas consigam superar esse desafio.

Como resultado, é desanimador constatar que passamos por um dos piores ciclo recessivos de nossa história, e estamos em meio a uma ferrenha crise fiscal, justamente quando tínhamos condições de aproveitar, ao menos, parte desse bônus. E o quadro parece mais grave ao lembrarmos que a questão previdenciária, que na teoria deveria ser ponto de alívio nesse momento, tem papel central no rombo das contas públicas - o recente déficit do governo Temer em junho se transformaria em superávit caso descontado o custo com a previdência.

Porém, nem tudo são más notícias. Repare como nossa razão de dependência (quantidade de jovens e idosos em relação à população total) ainda deverá atingir um mínimo na próxima década, para passar a crescer de maneira consistente a partir de 2030:




Isso significa que as condições demográficas vão dar uma mãozinha para as contas públicas brasileiras, ao menos, pelos próximos três mandatos presidenciais. O que vem a partir daí, no entanto, volta a trazer preocupação para quem precisará contar com o INSS mais adiante.

Em um bom exercício de futurologia, tudo isso me leva a algumas considerações:

1) Não há melhor momento para se arrumar a casa do que agora, enquanto a PEA ainda alivia o erário nacional. Me chamem de ingênuo, mas torço fortemente para que Temer e os próximos governantes consigam o mínimo de coesão política para implementar a reforma trabalhista, desconstruir privilégios da elite do funcionalismo público, aplacar as exceções corporativas. Quem sabe, ainda, a conjuntura de recuperação econômica permita que utilizemos esse contingente de força de trabalho em favor de um reequilíbrio fiscal;

2) É lógico que, com a melhora da qualidade de vida e aumento da expectativa da população, também podemos esperar por um maior tempo de permanência de adultos no mercado de trabalho. Lembro que, para a Organização Mundial da Saúde, a classificação de idoso está diretamente relacionada ao padrão de vida, motivo pelo qual, nos países desenvolvidos, idosos são aqueles a partir de 65 anos. Sendo assim, pensar em se manter privilégios de aposentadoria aos 50 anos me parece descabido em qualquer circunstância;

3) Esperar pela aposentadoria pública como única fonte de renda na velhice é uma aposta das mais perigosas. Em 30 anos a economia poderá estar voando, mas com tudo o mais constante, o orçamento público poderá lidar com severas restrições para arcar com seus compromissos. A análise da história recente do Brasil, de qualquer forma, mostra que é difícil contar com estabilidade;

4) Mantenha o foco no aumento do patrimônio e nos investimentos (seja ou não na NTNB 2050), eles poderão ser fundamentais para você e até mesmo para a macro-sustentabilidade brasileira. A transição demográfica traz outras vantagens em potencial a serem aproveitadas, conforme mostrarei no próximo post;

5) A reforma da previdência me parece elemento incontornável no equilíbrio do gastos público, seja qual for a base de cálculo para justificar um déficit/superávit da previdência atualmente. Se hoje estamos estrangulados com o custo previdenciário, o que nos resta em 2050, quando a razão de dependência alcançará proporções muito mais elevadas?

Será que a cultura do brasileiro poderá se adaptar às mudanças surgidas com o envelhecimento da população?

Esse será tema do próximo post.

Espero contribuir para a reflexão de todos, abraço!

Comments

  1. O foco será fazer a sua própria aposentadoria nos investimentos, sem depender de ninguém.

    Abraço e bons investimentos

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    1. Pois é DIL,

      Uma pena que a cultura de poupança passe longe do cálculo da média dos brasileiros..

      Abraço!

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  2. Ótima análise!

    Infelizmente nós vivemos em um país esquizofrênico, em que os representantes políticos agem de forma casuística, sem pensar no longo prazo. Veja, estamos passando por uma severa crise fiscal e o que o Presidente da República faz: libera bilhões em emendas parlamentares para se salvar de denúncia de corrupção. Emendas essas destinadas a pequenas obras, eventos, shows, etc. Nada pensando no longo prazo.

    O Brasil é um caso de difícil solução, mas enquanto isso façamos nossa parte para ter uma vida tranquila dependendo o mínimo possível do Estado.

    Abraços!

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    1. Oi Ministro,

      Pois é, me pergunto se esse imediatismo na gestão pública pode ser combatido ou se está impregnado em nossa identidade nacional, algo como o lado negativo do jogo de cintura e do improviso brasileiro. Minha impressão é de que a cultura de pensar em longo prazo quase inexiste no Brasil, seja na política, seja no ambiente privado.

      Abraço!

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  3. Quem está se preparando para viver um futuro sempre depender da nossa previdência deficitária vai viver tranquilo, com toda certeza!

    Minha intuição diz que essa reforma ainda vai demorar muito tempo. Tempo que não pode ser perdido...

    Abraço!

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    1. Minha intuição diz que essa reforma, saindo ou não, vai precisar ser complementada na marra no futuro. Estamos quase no limite da irresponsabilidade fiscal do Estado... Se bem que nós sabemos ser criativos como ninguém, nunca se sabe o que se pode tirar da cartola para continuar bancando privilégios.

      Abraço, e obrigado pela visita! Vou conferir o seu blog!

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  4. Investidora IluminatiJuly 31, 2017 at 9:04 AM

    Muito bom seu texto! Aguardando a parte 2 :)
    Realmente precisamos aprender cada vez mais cedo a não contar com o Governo na nossa velhice. Cada um por si e todos (os ativos) sustentando o Estado e aqueles sustentados por este... triste realidade a de quem trabalha e paga impostos...
    Abraço Mr. Mascada.

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    1. Olá, Iluminati!

      Muito obrigado! E concordo com você, e é uma realidade mais do que sabida. Apenas procurei abordar o assunto pela ótica do potencial demográfrico, algo que não encontrei na rede.

      Em breve a parte 2, outro abraço!

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  5. Olá DM!

    Ótimo texto! E boa deixa! A pergunta que irá responder no próximo post é bem pertinente!

    Abraços

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    1. Olá II,

      Obrigado! Talvez não consiga responder à pergunta do post, estou longe de ser especialista. Mas, talvez por já ter convivido por algum tempo com outras culturas, tenho muito interesse em pensar sobre o que constitui nossa identidade e nos torna tão singulares.

      Até logo, um abraço!

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